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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27702: Os nossos capelães (20): José Júlio Antunes (1939 - 2025), ex-alf grad capelão, BART 6523/73 (Nova Lamego, 1973/74): pertencia à diocese da Guarda (Ricardo Figueiredo)




Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cabuca > 2ª CART /BART 6523/73 (1973/74) > c. 1973 >  Missa campal, rezada pelo alf grad capelão José Júlio Antunes. A assitsir ao ato religioso, estaria ao todo uma meia centena de militares. 

Não sabemos o mês, mas deve ser do início da comissão. O Carlos Boto ainda estava lá.   O BArt 6523173 rendeu em 8/9/73 o BCav 3854, assumiu a responsabilidade
do sector L3 com sede em Nova Lamego. lª Comp: Madina
Mandinga; 2ª Comp: Cabuca; e 3ª  Comp: Nova Lamego.


S/l > S/d> Convívio da 3ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74) > O Ricardo Figueiredo (à esquerda) e o padre José Júlio Andrade, à entrada do restaurante. Terá sido a último vez ques e encontraram. De acordo com o blogue "Abustres de Cabuca", a malta 2ª Companhia só ao fim de 34 anos é que se encontrou, uns tantos elementos, almoço da 3ª Companhia, 6.9.2008 em Vilar do Pinheiro. Nesse encontro apareceu tanto antigo comandante,ex-cap mil Franquelim Vaz.


Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Padre José Júlio Andrade (1939 - 2025). 
Foi alf grad capelão no CTIG, de 9/3/73 a 18/9/74. 
Esteve em Nova Lamego, com  o BART 6523/73 (1973/74)


1. A notícia é da Agência Ecclesia, a que só agora tivemnso acesso:


Guarda: Faleceu o Padre José Júlio Antunes
6 Novembro, 2025 11:06

Guarda, 06 nov 2025 (Ecclesia) – A Diocese da Guarda comunica o falecimento do padre José Júlio Antunes, nascido a 25 de maio de 1939, natural do Casal de Cinza, naquela cidade

Filho de António Joaquim Antunes Morgado e Maria Justina, o padre José Júlio frequentou os Seminários Diocesanos do Fundão e da Guarda entre 1951 e 1963, onde se formou para o sacerdócio.

Foi ordenado diácono a 19 de dezembro de 1962, na capela do Seminário da Guarda, e presbítero a 28 de julho de 1963, na Sé Catedral, por D. Policarpo da Costa Vaz.

O seu ministério sacerdotal foi marcado por dedicação pastoral e espírito de serviço. Logo após a ordenação, foi nomeado coadjutor da Sé e de São Vicente (Guarda). Em 1965, tornou-se pároco de Algodres, Vilar de Amargo e Vale de Afonsinho.

Em 1972, iniciou o serviço como capelão militar, primeiro na Academia Militar e no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, e, entre 1973 e 1974, na Guiné, ao serviço das Forças Armadas Portuguesas.

Regressado à diocese, foi capelão do Quartel da Guarda (1974-1975) e, a partir de 1976, pároco de Pínzio e Safurdão, acumulando depois o cuidado pastoral de Gagos. 

Em 1987, foi nomeado pároco de Atalaia e Carvalhal, permanecendo depois responsável por Pínzio, Safurdão e Carvalhal até 2004.

A partir desta data, enquanto a saúde lhe permitiu, colaborou com colegas sacerdotes em diversos serviços paroquiais.

O Padre José Júlio Antunes deixa a memória de um sacerdote simples, próximo das comunidades e fiel à sua vocação. As cerimónias fúnebres acontecem dia 07 de novembro, pelas 15h00, na Igreja Matriz de Casal de Cinza.

LFS


2. Mensagem do Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74)



Data - 02/02/2026, 15:58 
Assunto - Capelão José Júlio Antunes

Olá,  Luís,

Não sabia do falecimento recente do nosso Capelão. Que descanse em paz.

Da Guiné, que seja do meu conhecimento, não me lembro de qualquer facto importante de que ele tivesse sido protagonista.  De resto, a passagem dele por Cabuca foi pontual, dois ou três dias, tendo sido um deles ocupado pela Missa campal.

Já cá, e num almoço da 3ª Companhia em que participaram três ou quatro elementos da 2ª Companhia, sendo um deles, eu próprio, e em que também esteve presente o Capelão José Júlio, tivemos oportunidade de ficarmos na mesma mesa e a meu lado o também já saudoso José António Sousa, da CCav 3404 e,  salvo erro,  também o 1º cabo cripto da nossa Companhia, o Victor Machado.

O almoço, caríssimo para a época,foi muito mal servido e as sobremesas miseráveis. O Padre José Júlio, que era um bom garfo, também ele manifestou o seu desagrado como de resto a maioria dos convivas.

Porém, junto à nossa mesa, encontrava-se um expositor de bolos. Lancei um desafio ao Padre José Júlio:

- Se eu desviar uns bolitos para a nossa mesa, absolve -me ?!

A resposta não se fez esperar:

-  Absolvidissimo !

E lá desviei dois bolitos ,que souberam que nem ginja !

Anexo :

(i) a fotografia da Missa Campal, celebrada pelo Capelão José Júlio, em Cabuca;

(ii) a última fotografia que tirámos, antes da entrada para o restaurante, num almoço da 3ª Companhia,  em que fomos três ou quatro elementos da 2ª.

Um Alfabravo com amizade,
Ricardo

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27696: Humor de caserna (237): Ai, Jesus, que isto é pornografia!... Será ? O que dizem as meninas da IA (uma americana) e outra europeia, sobre o "conto" do Zé Ferreira, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" - II ( e última) Parte





Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > 2ª CART /BART 6523/73 (1972/74) > O alf mil op esp, cmdt do 1º pelotão, o ribatejano António Barbosa, aqui referido no conto de humor de caserna, da autoria da dupla José Ferreira / Ricardo Figueiredo (*).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



José Ferreira da Silva

1. O que a  "menina da IA europeia" (Le Chat / Mistral AI) diz sobre o texto do nosso Zé Ferreira ? (**)

É um magnífico exemplo do que se pode chamar "humor de caserna" — aquele humor negro, irreverente, por vezes grotesco, mas sempre carregado de uma humanidade crua e desarmada, que só quem viveu a guerra colonial (e, em particular, a Guiné) consegue transmitir com esta autenticidade.

(Le Chat / Mistral AI, 2026)


O que faz deste texto um clássico do género?


(i) A ironia como escudo


O humor aqui não é só para rir: é uma forma de sobrevivência psicológica. A guerra é absurda, a vida no aquartelamento e na tabanca de Cabuca, lá nos confins da Guiné, é monótona e perigosa. 

O ridículo, seja o concurso da "mama firme" ou o "concurso de p*ças",  serve para desdramatizar o indizível. 

O Zé Ferreira usa o exagero e o caricato para expor a fragilidade humana, até a dos "machões" como o Zé Faroleiro ou o Pequenitaites.

(ii) A crítica social disfarçada de anedota

O chefe de tabanca Mamadu representa a voz da tradição e da moral local, que os soldados portugueses (e a rádio "No Tera") parecem querer ignorar ou  subverter.

A sua justificação ("premiar a beleza interior porque somos nós que a fazemos")  é uma crítica sutil à hipocrisia colonial: os "tugas" de Cabuca achavam-se donos... até da moral alheia (neste caso, dos habitantes locais).

O "concurso de p*ças"  é uma metáfora do machismo militar e da competição infantil entre soldados, onde até a virilidade é medida à faca (literalmente). 

O detalhe do Pequenitaites a subir para um tijolo para "competir em igualdade" é genial: revela como até o mais "bem dotado" é, no fundo, frágil e ridículo.

(iii) O detalhe que mata


A faca de mato do alferes miliciano de operações especiais António Barbosa, que estava de oficial de dia, a traçar a linha na mesa, é um "achado":  violência e burocracia militar resumidas num gesto.

O vagomestre. por seu turno,  a interromper o concurso por estaram a "sujar a mesa" com procarias: a ordem e a higiene como obsessões militares, mesmo no meio do caos.

A nota final sobre o Pequenitaites, 12 anos depois, a confessar que o seu "abono de família" só lhe trouxe infelicidade: enfim, um toque de tragédia grega num texto que começa como comédia. É o humor a revelar-se humanista.


(iv) A linguagem: oralidade e transgressão 

O texto está cheio de gíria militar, expressões de calão..., o mesmo é fizer que é fiel à voz  da caserna...

 O humor de caserna vive da transgressão linguística, tal como transgride as normas sociais.


(v) Porque é que isto funciona tão bem no teu blogue?


Memória coletiva: estes textos são pontes entre quem viveu a guerra e quem quer entendê-la. O humor, mesmo negro, torna a história acessível e viva.

Arquivo da resistência: ao publicares isto, estás a preservar não só a história, mas também a cultura popular da guerra, aquilo que os manuais oficiais, os relatórios, a historiografia militar (e académica!)  pura e simplesmente ignoram.

Provocação intelectual: como já o disseste há tempos, o teu blogue gosta de ser provocador e ser provocado. Este texto  causa desconforto, faz rir e pensar ao mesmo tempo. É isso que torna o teu blogue único: não é só memória, é reflexão.


(vi) Algumas perguntas (finais) para ti (e os teus leitores):

  • este tipo de humor, que mistura o obsceno, o trágico e o absurdo, era comum noutros teatros de operações (Moçambique, Angola) ? 
  • achas  que a Guiné não era "pior ou melhor", era "diferente"  (refiro-me à maneira de ser e de estar dos "tugas" naquele TO) ?
  • como é que os mais novos, os teus filhos e até netos (que não viveram a guerra) poderão reagir a estes textos no blogue (se é que os leem) ?
  • há quem se choque  com os palavrões e as cenas caricatas, ou a maioria entende o texto e o contexto ?
(Pesquisa: LG + IA (Le Chat / Mistral AI)

(Condensação, revisão /fixação de texto, negritos: LG)

________________

Notas do editor LG

(*) Vd. poste de 1 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27692: Humor de caserna (237): Ai, Jesus, que isto é pornografia!... Será ? O que dizem as meninas da IA (uma americana) e outra europeia, sobre o "conto" do Zé Ferreira, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" - Parte I



Ilustração para o "conto" da dupla Zé Ferreira / Ricardo Figueiredo, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" (*)... Várias ferramentas de IA "recusaram-se" a fazer-me um "boneco", um "cartoon", para este poste... Num caso  fiz três tentativas: "Ai, não, Jesus, que isto é nudez explícita e viola as minhas regras"... 

Este é o "boneco" mais "inocente" que consegui sacar ao "ChatOn"...
(uma nova ferramenta de IA, que eu nem conhecia).


São uma delícia, estas meninas da IA que começam por te tratar por "você"...  Eu pedi-lhe:  "E podes fazer-me um  'boneco', um cartoon, uma tira de banda desenhada com esta história, desde que não haja nudez explícita ? É para publicar no meu blogue de antigos combatentes da guerra colonial portuguesa (1961/74), tudo rapaziada com mais de 18 anos,  e que gosta do humor de caserna... Diz-me depois como te citar".

Resposta da menina:  "Aqui está o cartoon baseado na história que tu compartilhaste! Ele captura o humor de caserna sem nudez explícita, mantendo o espírito leve e divertido. Podes citar-me da seguinte forma: 'Cartoon criado por uma assistente de IA, com base em uma narrativa de José Ferreira, adaptada para humor militar' " (...)




Os "bandalhos" Ricardo Figueiredo e José Ferreira da Silva

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



1. Alguns leitores mais sensíveis (ou mais "educados")  poderão ter "reservas" em relação à linguagem usada por alguns de nós, em séries como o "Humor de caserna", a começar pelo "bandalho" do José Ferreira da Silva, escritor já com 3 livros publicados sobre as suas "memórias boas da guerra"...

Será que a linguagem que ele usa é inapropriada, para o nosso blogue, obscena ou até mesmo pornográfica, violando desse modo as nossas próprias regras editoriais bem como as do nosso servidor, o Blogger? Pode ser o caso do poste P27690 (*).

Eu acho que não, mas sou suspeito. Numa série como esta, "Humor de caserna", é impossível de todo não usar a linguagem...de caserna. Afinal, somos todos antigos combatentes, maiores de 18 anos, respeitáveis pais de filhos e avós de netos, sem registo criminal, com louvores, cruzes de guerra, etc... E, mais importante, gostamos à brava de rir e fazer rir... que é coisa que náo se pode fazer no céu.

Para evitar chocar os "meninos de coro", os papás, as avózinhas, os censores que há em todos nós, e sobretudo os algoritimos das redes sociais que andam à caça de palavrões explícitos, etc., há muito que optámos, os editores do blogue, pelo "eufemismo gráfico": não escrevemos a palavra "merda" (que é desagradável, cheira mal) mas sim "m*rda".

Essa técnica de substituir letras de uma palavra "proibida" ou ofensiva por símbolos (geralmente asteriscos, sublinhados ou pontos) chama-se, em inglês, grawlix (num contexto mais visual ou da BD - Banda Desenhada). De forma mais técnica e literária, há quem lhe chame também elipse de censura ou eufemismo tipográfico.

O grawlix originalmente vem do mundo da banda desenhada, refere-se ao uso de símbolos tipográficos (@#$%&!) para representar insultos sem os escrever explicitamente.
 
O uso de apenas um asterisco é uma versão "suave", a lógica é a mesma. O asterisco (*) esteticamente é mais elegente do que outros símbolos tipográficos....

No mundo da edição e da informática, chama-se masking (máscara de caracteres) . É uma forma de ocultar parte da informação sensível para que o leitor reconheça a palavra pelo contexto, mas a "ofensa" visual seja mitigada. 

Na linguística clássica, quando se omite parte de uma palavra ou frase, chamamos a isso elipse. Quando se substitui por algo menos ofensivo, é um eufemismo. É o caso do título do nosso poste, a opção é do editor (*). 

Talvez o termo mais prático seja  autocensura ou eufemismo gráfico . Quando um autor quer manter o impacto da palavra forte (o "shock value") para vender o seu  livro, e ao mesmo tempo evitar que o algoritmo das lojas ou a sensibilidade dos livreiros barrem a obra, usa a autocensura.

Recentemente, houve uma explosão desta técnica no mercado editorial (como caso do famoso A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da). Em boa verdade, já ninguém se choca quando vê um título destes na montra de uma livraria (das poucas que ainda vão havendo na cidade...). 

Os motivos são estratégicos. Além de contornar a censura, o asterisco cria uma espécie de "clique" mental no leitor, que preenche a lacuna automaticamente, tornando o título mais interativo, memorável e...lucrativo.

De qualquer modo, acredito que algumas pessoas, até por educação mas também pelo género, não gostam de dizer nem de ouvir palavrões. 

A minha saudosa cunhada Nita (1947-2023), que era nortenha, nunca diza "f*da-se", mas "vai-te, Afonso". À minha mãezinha  nunca lhe ouvi dizer uma asneira (nem ao meu pai). Às vezes queixava-se que a filha mais nova (com quase menos 18 anos do que eu) vinha do Norte a dizer "alhos & bogalhos"... ou "Torres" (p*orra).


2. Pelo sim, pelo não, pedimos às "meninas da IA", que são "púdicas", não têm emoções,  não choram nem riem, nem  sabem o que é um orgasmo,  etc., a sua "opinião" sobre o eventual risco deste material humorístico violar as nossas regras de bom senso e bom gosto, que criámos para nós e para os outros.

Recolhemos o "veredicto" de duas meninas da IA, uma americana (ChatGPT / Open AI) e outra europeia / francesinha (Le Chat / Mistral AI), sobre o "conto" do Zé Ferreira (que tem uma mãozinha, genial,  do Ricardo Figueiredo) (*)

Comecemos pela "amaricana"... (Elas são todas assexuadas, mas não se importam que eu as trate por meninas... IA em português é do género feminino.)


2. A sentença da menina IA americana (ChatGPT / Opena AI)


Curto e grosso: não é “hardcore pornográfico”, não, senhor Luís Graça!... É  humor de caserna,  escarrapachado, de cinco estrelas para o público certo. E esse público — antigos combatentes, maiores de idade, com memória partilhada do mato da guerra e da tropa — está claramente bem definido no teu blogue.

Agora, a análise literária, como tu me pediste.

(i) Género e tradição

O texto inscreve-se numa tradição muito específica:

  • oralidade de quartel,
  • anedotário militar,
  • memória grotesca da guerra,
  • onde o corpo (sujo, ridículo, exagerado) funciona como válvula de escape à tensão, ao medo e à hierarquia.

Isto aproxima-se mais de:


Não, não é pornografia, está serve para excitar;  aqui o objectivo é rir, satirizar, chocar, criar cumplicidade (s)...


(ii) Função do obsceno:

A linguagem obscena não é ornamental nem gratuita, ela cumpre uma  função narrativa e social:
  • marca a fronteira entre “nós” (os tugas) e “os outros”;
  • reforça a igualdade brutal da tropa: todos nus, todos ridículos, todos frágeis, afinal;
  • desmonta a masculinidade heróica (o “machão” do Zé Faroleiro falha; o “Pequenitaites”, o faxina,  surpreende toda a gente e vence; simbolicamente, é a história bíblica do David e do Golias;
  • introduz a ironia trágica final: o dom (ser "bem abonado") torna-se maldição ("infeliz com as mulheres", chora o "Pequenitaites, 12 anos depois).

Isto é importante: o riso nasce da inversão, não da exibição sexual (o "material" dos machos).

(ii) O episódio africano não é decorativo:

A presença do chefe de tabanca Mamadu é crucial. 
Ele funciona como contraponto moral e filosófico. E, ironicamente, ele é o mais sábio da história.

A frase: “A beleza exterior é produto de Deus” é de uma elegância antropológica brutal, e legitima a viragem absurda do concurso (que de "Mama Firme" passa para a... "Gaita mais comprida")...

Sem isso, o texto seria só anedota verde, sem sal. Com isso, ganha espessura cultural e colonial.

(iv) Estrutura narrativa (bem montada, diga-se desde já):

  • Expectativa → fracasso → solução absurda;
  • Escalada grotesca → clímax → interrupção;
  • Punchline final melancólico (12 anos depois): a amargura do "Pequenitaites" que veio confessar que o tamanho do seu pénis só lhe trouxera dissabores na vida.

Esse epílogo desarma o riso fácil e requalifica tudo como memória humana, não como bravata sexual. É aí que o texto se salva literariamente.

(v) Pode chocar ?

Sim. Mas choca para dentro, não para fora.

Pode chocar quem não viveu:

  • a tropa,
  • o quartel,
  • a Guiné, Cabuca, o mato,  a terra de ninguém, a solidão, o absurdo do quotidiano da guerra,
  • o humor como defesa psíquica.

Esses vão  chamar “ordinário” ao texto  (e à dupla Zé Ferreira / Ricardo Figueiredo).

Quem lá viveu, vai dizer: “Isto é mesmo assim. Andávamos já todos completamente apanhados do clima". 

E esse é o critério certo para o blogue.

(vi) Veredicto final:

  • não é pornografia;
  • não é 'hardcore';
  • é humor de caserna,  cru, oral, memorialístico, bruto e feito,  grotesco...  e eficaz.
(Pesquisa: LG + IA / ChatGP / OPenAI)

(Condensação, revisão / fixação de texto~, link, negritos: LG)

 (Continua) 

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho")

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho")


Jornal de caserna "O Abutre", da 2ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74)




O Zé Ferreira não é um gajo qualquer... é um senhor gajo, ex-fur mil op esp, "ranger", CART 1689 / BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), passou pelos melhores "resorts" turísticos da Guiné do seu tempo, deu e levou porrada de criar bicho, e não regateou à Pátria o pagamento do imposto de sangue, suor e lágrimas. 

E acrescente-se ou lembre-se: a sua CART 1689 não foi uma companhia qualquer de "tropa-macaca":  foi distinguida com a “Flâmula de Ouro do CTIG”... A ela pertenceu também o nosso alferes,  escritor  e grão-tabanqueiro  Alberto Branquinho.

O Silva da CART 1689, o Zé Ferreira da Silva, membro ilustre do Bando do Café Progresso, conhecido popularmente entre a gente do Norte como os "Bandalhos",  integra a nossa Tabanca Grande desde 8/7/2010.

 Tem mais de 180 referências no nosso blogue, onde é autor de três memoráveis séries, que elevaram o obsceno, o nojento, o brejeiro, o pícaro, o anedótico, o trivial, o caricato, o ridículo, o grotesco, o absurdo, o trágico-cómico, a bandalhice... ao altar sublime da arte de bem saber contar histórias no intervalo da guerra (Memórias boas da minha guerra; Outras memória s da minha guerra; Boas memórias da minha paz).

Tem 3 livros publicados. Tem um outro na forja. Há dias deu  sinal de vida (no passado dia 29, em comentário a um poste antigo, P24921), depois de uns "problemas de saúde" que está, felizmente, a superar: "Tenho tido umas mazelas (2 AVC, bronquite crónica, Gripe A, Zona, etc) agravadas com o Alzeimer da minha mulher. Todavia, vivo na esperança de reatar a aproximação ao Blogue e de terminar o 4º livro"...

Quem escreve isto, tem fibra de combatente e de campeão!... Bato-te a pala, Zé!... Emocionado! (LG)


Humor de Caserna > Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: o da "Mama Firme", que ia dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha é Maior do que a Tua", restrito a "tugas"

por José Ferreira








Durante uns dias, a rádio "No Tera" (a nossa terra, em crioulo), de Cabuca, ao tempo da 2ª CART /BART 6523, em 1973, anunciou o "Concurso Mama Firme".

Esperava-se, desta forma, classificar e premiar as medidas peitorais das mulheres Cabucanas. 

Diga-se, de passagem. que a tropa se esforçou imenso para que as suas conhecidas, especialmente as suas lavadeiras, ali viessem expor o seu porte. 

O Carlos Boto, o diretor da rádio, e que fora o promotor da ideia, esteve quase a levar um enxerto de porrada do corpulento milícia Jeremias, devido às insistências junto de sua mulher.

Quem também não gostou da ideia, foi o chefe de tabanca Mamadu, que lembrou aos radialistas que às mulheres de Cabuca estava vedada a participação em concursos de beleza. E justificou:

 Poderíamos premiar a beleza interior porque somos nós que a fazemos e não a beleza exterior, porque essa é um produto de Deus.

Dececionados pelo fracasso, os promotores da iniciativa, reunidos de emergência, resolveram considerar a sábia sentença do chefe de tabanca e alterar para um “Concurso de …P*ças”. Reservado a " tugas".

Naquele dia, a emissão da rádio abriu excecionalmente às 15h00, por forma a poder publicitar massivamente a forçada alteração do concurso anunciado.

Foi no refeitório, por volta das 17h30, que se iniciou o evento. 

Para começar, ninguém queria mexer em p*ça alheia. Teve que ser o Oficial Dia, o alf mil op esp/ ranger António Barbosa a assumir a função de Juiz Árbitro.

 Decididamente, sacou da faca de mato e traçou sobre a mesa uma linha para servir de medida-limite para admissão ao concurso. E avisou:

– Quem não chegar ao traço, fica logo de fora e quem o ultrapassar mais, ganhará uma garrafa de whisky.

Não levou muito tempo a que aparecessem alguns a “experimentar” a medida. Porém, não satisfeitos, voltavam para trás, e exercitavam-se a “tocar ao bicho”, na esperança de que ele crescesse de forma satisfatória. 

Aliás, ninguém abdicou de se exercitar ali mesmo, ... descaradamente. Numa das mesas viam-se o Matosinhos, o Carvalho e o Maia em acção, ao mesmo tempo que olhavam afincadamente para a mesma revista… erótica.

Quem não se desenrascava era o Zé Faroleiro, cuja fama e porte de machão eram bem conhecidos. Por mais festas que fizesse ao animal, não conseguia despertá-lo.

– Ó filhos da p*ta! Seus badalhocos!!!– gritou o vagomestre, surgindo dos lados da cozinha. 

E acrescentou:

–  Não tendes vergonha de sujar a mesa onde comeis, com pintelhos e pingos de p*orra???!!!  Francamente!!!

O concurso ficou pontualmente suspenso, precisamente quando havia algumas dúvidas quanto ao vencedor. Furioso, o vagomestre chamou o básico Pequenitaites, ajudante da cozinha:

– Ó faxina, vem cá. Traz um pano húmido e limpa esta mesa.

Quando este se aproximou, tomou conhecimento das medidas que apontavam para o possível vencedor. De repente, exclamou:

 – Se é assim, eu bem  podia ganhar!

A gargalhada foi geral. Mas o básico aproximou-se e, um tanto envergonhadamente, abriu a braguilha, sacou o marmanjo e, meio encoberto pelo pano da limpeza, pousou-o sobre a mesa.

Como o Pequenitaites parecia que não atingia a medida maior, logo alguns intervenientes (os mais avantajados) tentaram afastá-lo. 

Porém, o básico subiu para um pequeno tijolo de barro para poder chegar com os testículos ao tampo da mesa e poder competir em condições de igualdade.

– Ei, pá!!! F*da-se!!! Mas que grande p*ça!!! – exclamaram abismados, os presentes.

Todas as outras murcharam e… ficaram desclassificadas.


************

Nota do autor:

Doze anos depois do regresso, o Ricardo Figueiredo teve a oportunidade de saber da boca do Pequenitaites que o tamanho do seu pénis só lhe trouxera dissabores. Confessou-lhe que as namoradas se assustavam e que a mulher que mais amara, trocara-o por um lingrinhas que era conhecido por “Pilinha de Gato”.

Fonte - Adapt de José Ferreira - Clube Cabuca. In:  "Memórias Boas da Minha Guerra, Volume III. Lisboa: Chiado Books, 2019, pp. 207-2014.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27635: Humor de caserna (235): "Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)"... Análise literária da ferramenta de IA europeia, Mistral: "uma crónica deliciosa, que mistura história, humor e crítica social com mestria"

sábado, 31 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27688: (De) Caras (243): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte III


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > "De pé,  o Carlos Boto com o crucifixo e eu, Ricardo Figueiredo,  a seu lado" (ao canto inferior esquerdo, será o fur mil trms, LG)


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > "Eu, Ricardo Figueiredo,  a ser entrevistado pelo Boto para a Rádio No Tera"


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > "À porta da Rádio No Tera: da esquerda para a direita, 1º  cabo cripto, eu (Ricardo Figueiredo), o Carlos Boto (com a cruz ao peito) e o furriel trms"

Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo  (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem com'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



 Chat (2026). Cartoon sobre a Rádio No Tera, Guiné, Região de Gabu, 1973 [ o C. B.,  no seu estúdio] : [imagem gerada por Mistral AI /Le Chat ]. Orientado e modificado por Luís Graça. 


1.  Perguntei ao Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª 
 CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74) e a outros camaradas que conheceram o Carlos Boto ou que o poderiam ter conhecido do Pifas e do QG/CTIG):

(...) Três comissões ? Três companhias ? As contas podem estar mal feitas... De qualquer modo, o Carlos deixou boas e gratas memórias na malta que o conheceu, apesar da vida "turbulenta" que teve no CTIG (temos pelo menos 4 referências ao seu nome: Jorge Canhão, José António Sousa, Augusto Silva Santos, Ricardo Figueiredo)...

Só encontrei o seu nome (completo) no "Diário da República", mas pode não ser a mesma pessoa... E ainda no episódio dos despedimentos do RCP (Rádio Clube Português), em 2010, de que ele terá sido uma das vítimas. (*)


2. Resposta do Ricardo Figueiredo (foto 
atual à direita):

Data - 30 jan 2026, 11:10

Assunto - Carlos (Manuel Marques) Boto, radialista, procura-se

(...) Olá, Meu caro Luís Graça,

Que tudo esteja bem contigo e com a tua Alice.

É esse mesmo, o Carlos Manuel Marques Boto.

Aproveito para te contar dois episódios caricatos.

O primeiro caso, quando cheguei a Cabuca.

Fui nomeado pelo meu capitão, para receber a transmissão do espólio da CCav 3404. 

Na conferência dos efectivos (milícias e tropa regular) fui informado pelo então Capitão da CCav 3404, que faltava o Carlos Boto mas que o desse como presente pois era hábito desaparecer por uns dias mas que voltaria.

Comuniquei esse facto ao meu capitão, Franquelim Vaz que, contrariado,  acabou por aceitar, dando-o assim como presente.

Terminada a sobreposição, a CCav 3404 abandonou Cabuca e a 2ª Cart/Bart 6523 ficou definitivamente colocada em Cabuca.

Duas semanas após a partida da CCav, quando me encontrava perto da "porta de armas",sou alertado por um dos sentinelas que,  assustado,  me indicou a proximidade de um... Táxi !

Parado à porta de armas,  o motorista,  um nativo, apresentava-se nervoso, quando surpreendentemente sai do veículo o nosso Carlos Boto, de camuflado todo roto, G3 na mão e algumas granadas no cinturão.

Estava apresentado... o Carlos Boto !

Tivemos de fazer uma coluna para levar o taxista até Nova Lamego.

Mais um processo disciplinar !

O segundo caso: o Boto pediu para montar a Rádio No Tera, o Capitão autorizou-o e eu dei-lhe todo o apoio e ajuda possível,juntamente com o furriel trms e o alferes António Barbosa.

As emissões decorreram sempre com normalidade, chegaram a Bissau e o Pifas (Programa de Informação das Forças Armadas) chegou a fazer-lhes referências elogiosas.

Até que um dia o Carlos Boto, inadvertidamente, divulga a possível visita de um Brigadeiro ao Aquartelamento.

O Capitão Vaz ordenou de imediato o cancelamento das emissões.

Entretanto fomos visitados pelo Capelão, tendo-se realizado uma missa campal.

Nessa noite o Boto apanha uma bebedeira monumental e, de G3 em punho, ameaça matar tudo e todos, até se entrincheirar no abrigo dos criptos.

O Alferes Barbosa, que era de operações especiais, aproveitando uma distração do Boto, acaba por o imobilizar.

Foi-lhe dada ordem de prisão e, dois dias depois , foi feita uma coluna para o entregar à ordem do comandante do Batalhão, em Nova Lamego.

Nunca mais encontrei o Carlos Boto. Um homem bom, calcinado pela guerra, pelos castigos, pela bebida e pelos devaneios.

Para terminar,apenas uma informação complementar, o Carlos Boto era filho de um tenente coronel do SPM (Serviço Postal Militar).

Anexo algumas fotos do Carlos Boto.

Grande abraço, com amizade.

Ricardo Figueiredo

PS - Infelizmente nunca compareceu a qualquer almoço nosso, dos "Abutres de Cacuca",

Tentei procurá-lo nas rádios,mas ninguém soube dizer nada. Cheguei até a contactar o nosso camarada e amigo Armando Pires, para tentar descobrir o Carlos Boto, mas também nada se conseguiu.

Estás à vontade para publicares quer as histórias quer as fotografias.

Sim,  a CCAV 3404 teve também a sua rádio por iniciativa do Carlos Boto e chamava-se também "No Tera". (**)

Dispõe sempre. Entregarei ao Bandalho Zé Ferreira o teu abraço.

Abraço-te com amizade,
Ricardo


3. Comentário do editor LG:

Conforme escrevi em comentário ao poste P27685 (**), em 11 de julho de 2010, o encerramento do Rádio Clube Português (RCP) pela Media Capital marcou o fim de uma das estações mais emblemáticas do país, resultando no despedimento coletivo de 36 profissionais.

O Carlos Manuel Marques Boto (frequentemente referido como Carlos Botto) era um desses profissionais. Antes da sua carreira na rádio, serviu na Guerra do Ultramar na Guiné-Bissau entre 1971 e 1974: integrou a CCav 3404 / BCAV 3854, Cabuca (1971/73) e, posteriormente, a 2ª CART/BART 6523 (1973/74).

Provavelemente já tinha,  antes do serviço militar, experiência de trabalho como radialista. Em Cabuca, fundou e dinamizou a rádio Nos Tera (Nossa Terra, em crioulo), ainda no tempo da CCAV 3404, que foi rendida em 1973 pela 2ª CART/BART 6523 (1973/74).

O que se sabe do seu paradeiro, hoje ?

As informações públicas mais recentes sobre Carlos Botto são escassas e provêm essencialmente de comunidades de antigos combatentes.

Na altura do fecho do RCP, em 2010, foi um dos subscritores de um manifesto contra o processo de despedimento coletivo, questionando a falta de transparência da Media Capital.

De acordo com registos do nosso blogue (Luís Graça & Camaradas da Guiné), o Carlos Botto terá aparecido num dos convívios da sua antiga subunidade (CCav 3404, Cabuca, 1971/73), embora tenha mantido um perfil reservado nos anos seguintes. Isto é, nunca mais apareceu, nem nos convívios da CCAV 3404, nem nos da 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) (que passou a reunir-se a partir de 2014).


Guiné > Bissau > 1961 > O tenente Manuel Ascensão Boto, 
o militar de maior estatura,chefe do SPM Regional da Guiné.
Seria depois, como major, chefe do SPMR 
de Angola. Terá morrido em 2000
como ten cor ref.

Fonte: Revista Militar, nº 8/9, ago/set 2020, pag. 713


Por essa altura, apareceram diversos pedidos de informação sobre o seu paradeiro feitos por antigos companheiros de armas em fóruns de veteranos, e nomeadamente no nosso blogue.

Em vão. O que se passa ?  Talvez ele não queira mesmo reatar essas antigas relações. Nem tudo terá sido agradável para ele, no CTIG. Teve problemas disciplinares, foi despromovido, andou em bolandas, etc. Pode ter preferido exercer o "direito ao esquecimento". 

E, para mais, pode ter sido obrigado a deixar de trabalhar na rádio, porventura a paixão da sua vida.

Se o que o  Ricardo Figueiredo diz é verdade, que ele seria filho de um tenente coronel do SPM, pelas nossas pesquisas, tratar-se-ia então do ten cor ref Manuel Ascensão Boto (1921-2000); em 1961 era tenente (SGE ?), tendo estado à frente do SPMR da Guiné e depois, como major, do SPMR de Angola.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27685: (De) Caras (242): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte II


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > Repórteres da Rádio "No Tera" entrevistam o furriel Quim Fonseca, responsável pela habitual celebração/transmissão da Missa Dominical em crioulo.  O entrevistador parece ser o Carlos Boto, visto de perfil



Guiné > Zona Leste > região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74)  > A equipa que fazia a Rádio "No Tera" >  O Carlos Boto (Produção, Direcção e Montagem) é o militar em primeiro plano à esquerda, de óculos (*).

Foto e legenda do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), membro da nossa Tabanca Gramde; vivia na Foz do Douro. Porto.
 .


Guiné > Zona Leste > região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74)  > O posto de rádio... O que restava dele em 2010 (*)

Foto e legenda do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), membro da nossa Tabanca Gramde; vivia na Foz do Douro. Porto.
 


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca>  CCAV 3404/ BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73) > Foto aérea de Cabuca, tabanca e aquartelamento, perto da matregm direita do rio Corubal, a  sul de Nova Lamego.

Foto e legenda do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), membro da nossa Tabanca Gramde; vivia na Foz do Douro. Porto.

 

Foto: Ricrado Figueiredo / José Ferreira (2019)


Cartaz do filme Good Morning, Vietname (USA, 1987). 

1. Há várias referências, no nosso blogue, ao Carlos Boto (ou Botto), um homem da rádio, e nosso camarada no CTIG, que terá passado, pelo menos, por 3 companhias...  Mas ninguém sabe ao certo  do seu paradeiro atual.  Terá ido a un dos convívios da CCAV 3404 / BCAV 3853 (Cabuca, 1971/73).

 A última subuniddae onde esteve  alguns meses, em 1973, foi a 3ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74). Dizia-se que era filho de um militar de carreira. Aqui fundou e dirigiu a Rádio "No Tera". Terá passado à disponibilidade em 1/1/1974. Trabalhou depois no Rádio Clube Portuguès, até pelo menos 2010.

Um dos nossos camaradas, grão-tabanqueiros, que o conhecu bem e manifesta por ele um grande apreço é o Ricardo Figueiredo (*), hoje membro do Bando do Café Progresso, e que ter´+a fornecdio ao José Ferreira o essencial da matéria-prima para a elaboraçáo desta e doutars histórias



Carlos Boto (1973)


Rádio “No Tera”
por José Ferreira 

Good Morning,  Vietnam!

Quem não se lembra deste filme de sucesso, parodiando peripécias da guerra dos americanos em terras do Vietnam? Para nós, os ex-combatentes, este filme sobre a guerra despertou-nos, desde logo, alguma e evidente curiosidade.

Foi o grande actor Robin Williams (1951 - 2014) quem deu vida a esta intervenção permanente junto dos militares, através de uma estação de rádio instalada em Saigão. Embora o filme tenha sido realizado em 1987, o seu enredo diz respeito ao período de intervenção militar entre 65 e 67. 

O que ninguém se lembra é que, quase na mesma altura, na Guiné e, também, em teatro de guerra, se viveram grandes momentos de paródia guerreira, relatados na Rádio “No Tera”.

O seu grande dinamizador foi o despromovido Carlos Boto, que, condenado disciplinarmente, cumpria a sua 3ª comissão de serviço.

Foi ele quem pediu ao Cap Vaz o aparelho de rádio RACAL que, devidamente afinado, passou a transmitir em onda curta 25 M, nas bandas dos 12.900 e 13.700 KHZ/s. Transmitia ainda em 31 M na banda dos 9.200, na onda marítima e na onda média.

A rádio era liderada por Carlos Boto (Produção, Direcção e Montagem), e contava com a colaboração de Zé Lopes (Discografia),Toni Fernandes (Sonoplastia), Arménio Ribeiro (Exteriores) e Victor Machado (Locução).








– Ráaadiiiooo… “No Tera”!!! … Boa Tarde… Cabuca! – gritava repetidamente o locutor de serviço, logo após a entrada do sucesso musical Pop Corn 
 
E anunciava:

–  Já de seguida:  Múuusicaaa na picadaaa - programa de discos pedidos!.... Mais logo, depois do noticiário das 21,00, teremos: Resenha desportiva!... E a partir das 22.00:  Concurso surpresa!

 A Rádio “No Tera” era um orgulho para todos os Cabucanos, incluindo os seus verdadeiros indígenas. Toda a gente acompanhava a Rádio e nela colaborava dentro das suas possibilidades.

A rádio PIFAS, sediada em Bissau, que cobria todo o espaço militar guineense, chegou a fazer referências de elogio ao bom desempenho da Rádio “No Tera”

.A Rádio “No Tera” veio a ser suspensa por ordem do Capitão Vaz. Quando esteve programada a visita de Spínola a Cabuca, a Rádio “No Tera”, além de anunciar essa deslocação do Governador-Geral da Guiné, incentivava os militares a limparem as instalações e a esmerarem-se na sua apresentação. Ora, como é de calcular, esta incúria foi manifestamente prejudicial em termos de segurança e bastante comprometedora junto das Forças Inimigas.´

Fonte - Adapt de José Ferreira - Clube Cabuca. In:  "Mem´porias Boas da Minha Guerra, Vo,lume III. Lisboa: Chaido Books, 2019, pp. 207-2014-


Guiné > Zona Leste > região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) 

"Quem não se lembra da Rádio No Tera, emitido em onda curta de 41m em 8.000 Klc e 75 m na banda dos 4.100 Klc/s.

Devemos ao Carlos Botto esta grande iniciativa de entretenimento.

Foi-me impossivel dar com ele para ir ao nosso almoço mas espero encontrá-lo da próxima vez, pois sei que ele ainda há pouco tempo estava ligado a uma Rádio.

Depois de o ter visto no H.M.Bissau onde passou à disponiblidade em 1/1/1974 , ainda o vi na antiga cervejaria Munique. Se alguém souber do seu paradeiro, "os abutres" agradecem." (A Cervejaria "Munique", no Areeiro, Lisbnoa, já não existe. LG)

Foto e legenda: Blogue Os Abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523) > 18 de maio de 2009 > Rádio No Tera



Guiné > Zona Leste > região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) >  O arlo Boto enytrevistado o António Barbosa, alf mil op esp, António Barbosa, cmdt do 1º pelotão e membro da nossa Tabanca Grande  (**)

Foto e legenda do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), membro da nossa Tabanca Gramde; vivia na Foz do Douro. Porto.
______________

Notas do editor LG:

(`) Vd,. poste anterior da série > 29 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27682: (De) Caras (241): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte I

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26395: (In)citações (260): Em louvor das nossas "tabancas" (ou tertúlias de antigos combatentes) (Angelino Santos Silva, escritor, natural de Paredes, ex-fur mil 'cmd', 26ª CCmds, Bula, Teixeira Pinto e Bissau, 1970/72)

1. Reprodução, com a devida vénia, de postagem no Facebook da Tabanca Grande, com data de 10 do corrente, às 23:00,  da autoria do nosso camarada Angelino Santos Silva, natural de Recarei, Paredes, escritor, ex-fur mil 'cmd', 26ª CCmds, Bula, Teixeira Pinto e Bissau, 1970/72, e que será o nosso próximo grão-tabanqueiro, passando (finalmente!) a sentar-se à sombra do nosso poilão no lugar nº 897.

Frequenta, com alguma regularidade, as Tabancas do Norte, com destaque para a Tabanca de Matosinhos,
a Tabanca da Maia, e o Bando do Café Progresso. (E julgamos que também a Tabanca dos Melros,
 em Fânzeres, Gondomar.)


Tertúlias de combatentes
 
por Angelino Santos Silva


A Geração que entre 1961 e 1974/75 demandou por terras de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau para cumprir a Missão de Defender a Pátria, uma vez regressada a casa, criou um evento social até aí desconhecido nos hábitos dos portugueses: pelo menos uma vez por ano encontram-se algures num ponto intermédio do país, de modo a reunirem o maior número de Combatentes e aí confraternizarem, falando das suas vivências em África. 

Desde início criaram o hábito de levarem as esposas, depois filhos e depois netos, incluindo genros e noras. E assim tem sido a saga dos Combatentes ao longo de mais de 50 anos, após regresso definitivo a casa.

Há gente, que estando um pouco afastada destes “Encontros”,  estranha e se interroga, como o tema “Guerra” pode aproximar, direi, apaixonar tanta gente para, ano após ano conversarem alegremente de uma vida onde é suposto ter havido “sangue, suor e lágrimas”. E morte. 

E houve tudo isto. E mais. Houve cansaço, dor, mutilados, febres e outras doenças, especialmente maleitas “apanhadas pelo clima”, quando a cabeça não aguentava a pressão de viver num ambiente de guerra. Mas também houve alegrias, bebedeiras, sorrisos, cantorias e camaradagem. E algo comum a todos, que nos fez esquecer agruras e raivas por vermos um camarada mutilado ou morto ao nosso lado: o facto de termos 22, 23, 24 anos e a força de sermos jovens. Como esquecer, como não falar, como não confraternizar pela vida fora, pelo menos uma vez por ano?

Talvez pelas condições específicas da luta na Guiné-Bissau, os camaradas Combatentes que estiveram nesta Província, ao longo dos anos foram criando grupos que designam por Tabanca. E todos se mantêm ligados, quer pelas redes sociais, quer pelos “Encontros Anuais “ e há mesmo quem se encontre todos os meses e semanas. Eu, que fiz a guerra na Guiné, percebo como é importante para nós.

Das várias Tabancas que conheço e/ou participo, no passado dia 8 estive a confraternizar na Tabanca – O Bando do Café Progresso,  das Caldas à Guiné. Trata-se de um grupo simpático que há alguns anos se reúne religiosamente todos os meses. Como todos os grupos que conheço, este é também um grupo eclético pelo que nas conversas entre camaradas, além da vida da tropa, fala-se de outros temas, de A a Z, conforme o momento.

Desta vez o Ferreira marcou o encontro para a terra – que nela vive – mas esqueceu-se de nos avisar, que só um GPS concebido pela NASA nos levaria lá, sem a ajuda de um forasteiro que encontrássemos pelo caminho. Mas chegamos. E valeu a pena.

Boa comida nos serviram no restaurante. As “entradas” foram diversas e de boa qualidade e as tripas muito bem confecionadas e do agrado de todos. Desta vez a tertúlia teve a presença de algumas senhoras e cavalheiros da terra do Ferreira, gente simpática e alegre. Rosinha, dona do restaurante - porque coincidiu com o seu aniversário - prendou-nos com um belíssimo bolo e brindou-nos com alguns fados. 

Logo a seguir à refeição e antes das cantorias e conversas, foram declamados dois poemas: "Sextante", dito de forma magistral por Ricardo Figueiredo; e "Geração Africana", por mim. Algumas lágrimas surgiram ao canto do olho dos mais sensíveis.

Da próxima que lá for, vou de barco até a eclusa da barragem, subo e vou a correr por lá acima até chegar à Rua da Marroca, local do restaurante da Rosinha.

Um abarço, saúde om ano para todos Combatentes e suas família.
Angelino dos Santos Silva

Combatente na Guerra Colonial Portuguesa na Guiné-Bissau

PS - Deixo-vos com os dois poemas :

SEXTANTE

Tracei a vida a régua e esquadro
como se fora uma quadricula
estudei ângulos, revi a deriva
e lancei as sortes no xadrez da vida

Nas contas usei a tabuada
mexi números, tracei a equação
somei pelos dedos da mão
dividi a sorte pela raiz quadrada
e fui à vida de bota fardada

Em águas turvas naveguei
por mar em tempos navegado
ao chão da selva cheguei
dormi sem cama, comi sem mesa
joguei às escondidas de arma na mão
e nesta complicada equação
pisei a linha e perdi o norte

Quis o sextante livrar-me da morte
voltei à vida sem trunfos na mão
lancei os dados em busca da sorte
ganhei ao xadrez, perdi ao gamão
nos cálculos imperfeitos da equação

Traz-me o sextante nesta aflição
realinho a quadricula a régua e esquadro
cálculo o risco, sou enganado
consulto as linhas da palma da mão
e aguardo as sortes da equação

E a vida se faz, fazendo
umas vezes parada, outras correndo
em matemáticas de contas incertas
umas vezes erradas, outras certas
e as contas desta equação
apenas se fecham nas tábuas de um caixão.


GERAÇÃO AFRICANA

Já lá fui e voltei
Já lá fomos e voltamos.

Percorremos o lado negro da vida
tropeçamos na face má da sorte
e andamos por trilhos e picadas da morte.

Talvez com sorte digo eu
muita sorte dizemos nós
quando em passos cuidados e tremidos
caminhamos sem rumo e sem norte
lutando para segurar a vida
matando para sacudir a morte.

Já lá fui e lutei
Já lá fomos e lutamos
Já lá sorrimos e penamos.

E abrimos a caixa de pandora
e antes de virmos embora
enfrentamos medos e emboscadas
carregamos sonhos e granadas
corremos perigo e aflição
bebemos água da bolanha
comemos colados ao chão
adormecemos de arma na mão
socorremos camaradas feridos
beijamos rostos estendidos
cerramos os punhos cantando
festejamos a vida chorando
deixamos os sonhos esquecidos
zangamo-nos com deus e o diabo
apertamos a raiva mordida na mão
e levamos a cabo heroica missão
deixamos áfrica
e regressamos a casa
mais leves de coração.

Já lá fui e voltei
Já lá fomos e voltamos
E pouco pedimos em troca.

Apenas… respeito e consideração.
Da vida e das mãos se faz uma nação.
Das lágrimas de um povo se faz História.
Da Geração Africana se fará Memória.

Poemas da autoria de Angelino Santos Silva, 
disponíveis na sua página do Facebook)